Aula anterior Completar e continuar  

  Introdução

Taijiquan


“Os movimentos dos pés não valem os movimentos das mãos.
Os movimentos das mãos não valem os movimentos do espírito.”



Esta antiga máxima taoista demonstra a profunda visão integradora presente na milenar cultura chinesa. Os pés representando a terra, o corpo físico, nossas funções orgânicas vitais; as mãos, com as quais damos e recebemos, afastamos ou acolhemos, representam nossas emoções e nossa psique; o espírito é a própria Consciência, a Unidade integradora, aquilo que nos anima e nos enche de Vida. A mensagem é clara: como seres humanos, devemos nos desenvolver física, mental-emocional e espiritualmente.

Com essa visão, os chineses desenvolveram ao longo do tempo uma série de exercícios marciais e terapêuticos que pudessem fortalecer o corpo, aumentando o tônus muscular, ampliando o arco de movimento das articulações, tonificando os sistemas nervoso e circulatório.

Além disso, os movimentos deveriam trabalhar a mente e as emoções, mediante respiração correta, visualizações, relaxamento, memorização, criatividade e concentração, o que também desenvolveria a percepção espiritual. Assim, a pessoa poderia ser realmente saudável, isto é, feliz, plena, e em harmonia consigo e com tudo o mais.

Considerado uma arte única, profunda e peculiar da China, confundindo-se com a própria cultura desse país, fica difícil definir o Taijiquan (Tai Chi Chuan).

Como técnica de autodefesa, mostra-se hábil e elaborado – incluindo técnicas conhecidas como Sanshou (散手), ou Sanda (散打), significando literalmente, “mãos livres” ou “full-contact”, uma mistura de diferentes técnicas encontradas em outras artes marciais tradicionais, como Judô, Muay Thai, Kung Fu, e no Wushu moderno.

O treinamento de Taijiquan envolve cinco elementos: Neigong (exercícios de energia interna, como Qigong e meditação), Taolu (formas ou rotinas de movimento), Tuishou (empurrar de mãos), Sanshou (armas: Dao – sabre, Jian – espada, Qiang – lança, Da dao – alabarda).

Como esporte, um dos mais saudáveis e completos; como caminho filosófico, aquele que se baseia no princípio cósmico de Tai-Chi (太極), Yin/Yang (阴/阳), isto é, princípios de expansão e recolhimento, positivo e negativo, movimento e quietude (WU HSIANG, 1992).

A tradução mais corrente (e literal) de Tai Chi Chuan (Taijiquan, 太极拳, CH simplificado, 太極拳, CH tradicional) é a de “Boxe da Suprema Cumeeira”, o que, convenhamos, não nos diz muita coisa. A palavra Chuan (Quan, 拳) significa punho, ou luta utilizando os punhos, daí boxe. Chi (Ji, 极) é traduzido como viga da cumeeira de uma casa, pivô. Tai (太) é supremo. O significado disso é que o estado Tai Ji é aquele que alcançamos quando temos um bom eixo, percebemos a complementaridade dos opostos e unimos as dualidades, aceitando a complexidade da realidade multidimensional da existência.
Uma bela leitura dessa arte é encontrada na nota dos editores do livro Como Usar a Técnica da Grande Energia Cósmica, do Dr. Wu Chao-hsiang, a seguir transcrita:

“Filosoficamente, há algo a ser descoberto no corpo de cada um: Tai, 太– nobreza de sentimentos, equilíbrio e magnanimidade; Chi, 极 – força de vontade, persistência e resistência à adversidade; Chuan, 拳 – agilidade, rapidez e flexibilidade nas dificuldades. Um encontro com a paz interior, criando uma vida feliz e real (WU HSIANG, 1992).”

A arte marcial do Tai Chi surgiu na China muito tempo atrás. Nosso Grão-Mestre Wu Chao-hsiang (1992) conta que, embora haja divergências, a origem mais aceita é a da antiga tradição que afirma que essa arte foi criada pelo monge e magistrado aposentado Zhang San Feng (张三丰) (1127–1279).



Ouvimos que, numa tarde de Primavera, o monge escutou um estranho barulho enquanto meditava em sua cabana na montanha Wudang. Olhou pela janela e assistiu a uma curiosa luta entre uma serpente e um pássaro (um grou). Diante da astúcia do pássaro e da maleabilidade da cobra, alternados com repouso, Mestre Zhang recordou um antigo ensinamento:

“O que é mais submisso que a água? No entanto, a água consegue furar a pedra com sua persistência.” Daí, passou a uma série de considerações a respeito da Natureza, dos rios, cachoeiras, árvores, vento, etc. Unindo isto aos princípios do I-Ching – Tratado das Mutações (Yi Jing, 易经) e aos conhecimentos de outras artes marciais, organizou tais movimentos naturais numa forma muito peculiar, criando o Tai Chi Chuan como uma arte marcial interna.


Essa arte marcial, patrimônio do povo chinês, é hoje conhecida e praticada em todo o mundo, o que fez com que sofresse numerosas alterações e adaptações. Contudo, os modernos estilos de Tai Chi Chuan derivam de uma das cinco escolas tradicionais: Chen, Yang , Wu / Hao, Wu e Sun.* E todas elas têm origem na Vila Chen – Chenjiagou, na Província de Henan, às margens do Rio Amarelo –, berço histórico do Tai Chi Chuan.

Porém, devido ao seu caráter destacadamente terapêutico, esse seu aspecto ganhou mais atenção e adesão ao longo do tempo. Isso já havia sido previsto por seu próprio “criador”, que declarava que essa arte levaria muitas pessoas à saúde, longevidade e felicidade, sendo secundário seu aspecto marcial. Hoje em dia, o Tai Chi que se pratica, em geral, é o marcial-terapêutico e/ou o terapêutico.

Seus movimentos surgiram da percepção da Natureza: da fluidez da água, da amplitude do céu, da segurança e fertilidade da terra, da constante movimentação dos animais, da contínua alternância entre os opostos, da importância da integração e harmonia. Tudo isso foi aliado ao conhecimento da antiga e ainda atual Medicina Chinesa, na qual se admite que, além dos vasos sanguíneos, há um complexo sistema de vasos e canais energéticos por onde circula a energia vital, também chamada de Qi (气). Já diziam os tratados milenares da China: “onde flui o sangue, o Qi acompanha”.

Quando executamos movimentos conscientes, de forma contínua e circular, unidos com a respiração, estamos não só ativando e relaxando o corpo físico, mas trabalhando conjuntamente todo nosso corpo energético. Por isso, o Taijiquan é também às vezes chamado de “acupuntura em movimento”. Os formulários são aprendidos e treinados lentamente, mas há formas mais rápidas no sistema e todos os movimentos podem ser aplicados em velocidade, uma vez aprendidos. Movimentos lentos são enfatizados para incentivar boa postura, relaxamento e equilíbrio.

Grão-mestre Wu Chao-hsiang (Wǔ Chaoxiang, 武朝相 –1917–2000), doutor em Medicina Chinesa, nos ensina (1992) que essa graciosa arte (Chuan) serve para promover saúde, tanto física quanto mental e espiritual, nutrindo seu praticante de plena vitalidade. Sem limitações à idade, pode ser praticado por todos e é uma prática natural, livre, fácil e suave. Assenta-se sobre princípios clássicos do Yi Jing como “a flexibilidade vencendo a rigidez”.


NOTA

*As principais Escolas ou Estilos:

Chen – fundado por Chen Wangting (1580-1660).

Yang – fundado por Yang Lu-chan (1799-1872).

Wu (1) – fundado por Wu Yuxiang (1812-1880).

Wu (2) fundado por Wu Quan-yu (1834-1902).

Sun – fundado por Sun Lu Tang (1861-1932).

Além destes, há também a Escola Wudang, arte marcial separada, mas com base nos mesmos princípios.

eBook Principios e praticas.pdf